quinta-feira, março 16, 2006

Da assembleia geral

Os últimos 10 anos do Sporting foram marcados pela ascenção à direcção do clube de uma suposta "elite" de gestores, que prometeram "amanhãs que cantam". Criaram a Sociedade Anónima Desportiva e um conjunto de empresas onde pontificam a Sporting Comércio e Serviços, a NEJA e mais não sei quantas.
Construiram o novo estádio e a Academia. Reduziram fortemente o orçamento para o futebol. Tiveram apoios do Estado, no âmbito do Euro 2004. Alienaram património (terrenos do antigo estádio e pavilhões, uma quinta adjacente e não sei mais quê...). Venderam os melhores jogadores (assim de repente, Duscher, Simão Sabrosa, Boa Morte, Hugo Viana, Quaresma, Cristiano Ronaldo, Enakarire, Rogério, Danny, Rochemback, etc.), gerando o maior fluxo de receitas extraordinárias de que deve haver memória no Sporting num curto espaço de dez anos.
Deixaram-nos sem pavilhões nem pista tartan. Acabaram com a maior parte das modalidades semi-amadoras. Governaram o clube de costas para os sócios, ignorando-os olimpicamente entre co-optações e "project finance". Entregaram o clube às mãos de duas instituições bancárias, que são hoje os verdadeiros gestores do Sporting. Por isso, de 60 mil sócios pagantes, sobram 40 mil. As receitas de bilheteira cairam.
Agora, à rasca, chamam os sócios de novo. Com um monstruoso défice acumulado, com um insuportável serviço de dívida, com uma equipa profissional de futebol com um orçamento que é um terço do Porto e metade do Benfica, querem vender o pouco de bom que construiram: um património imobiliário que tornaria o Sporting (esse foi o argumento utilizado, recordo-me bem) imune à bola que bate no poste. Geraria as receitas necessárias para que o clube vivesse sem grandes preocupações financeiras.
Com a venda desse património, propõem-se investir no futebol, em novos jogadores e em não terem de continuar a vender as "pérolas" à razão de uma por ano. Ou seja, em aumentar, de novo, o orçamento para o futebol. Depois, quando as mais valias da venda do património se forem, a bola bate no poste e ao Sporting, para tapar os buracos de tesouraria, restará alugar o estádio à IURD e os campos da Academia para pastoreio e retiros espirituais.
Não sei qual é, ou sequer se há, alternativa a esta venda de património. O que sei, como sócio do Sporting, é que quero mandar bardamerda esta troupe de notáveis gestores que tomaram conta do meu clube e que o levaram a esta triste situação. Roquette, Dias da Cunha e Soares Franco (este com menos responsabilidades, porque com muito menos tempo de "serviço") deixam o clube bem pior do que o encontraram. É certo que ganhámos dois campeonatos e fomos a uma final europeia. Mas podíamos esperar mais uns anos, se a alternativa era esta.
Acreditei, em devido tempo, na viabilidade do "projecto Roquette". Hoje, sinto-me enganado. Para cobrir o buraco de tesouraria, votarei a favor de uma redução da participação accionista do Sporting Clube de Portugal na SAD até aos 50,1 por cento. São 15 milhões de euros. Os bancos, que surgem como "parceiros", que comprem as acções para viabilizar o futuro próximo do clube.
Porque não aceito ultimatos ou chantagens, porque entendo que planos sérios de viabilização do clube devem ser discutidos por quem os pretende levar para a frente depois de devidamente eleito pelos sócios, vou votar contra a alienação do património. Não que veja grandes alternativas. Mas esta forma de fazer as coisas não é séria. Faça-se uma auditoria. Perante a situação apurada, apresentem-se os candidatos e discutam-se os respectivos programas eleitorais, para que possamos escolher entre as diversas alternativas. Apresentar aos sócios factos consumados e questões de vida ou morte é que não. Agora não. Já é tarde. Por isso mesmo, e por paradoxal que possa parecer, há tempo. Pode esperar até Maio, até às eleições.

11 Comments:

Blogger Rantas said...

A solução para o problema é aumentar o nº de sócios pagantes e as assistências médias aos jogos. Isso atinge-se com boas equipas de futebol e bons resultados desportivos - ou seja, rentabilizando os activos do clube, que são os jogadores que vão saindo da Academia.

Preocupa-me que tu, alguém que me habituei a ver a colocar os interesses do Sporting à frente de outras questões, afirmar um sentido de voto baseado mais nos factores acessórios (a forma miserável como tem decorrido o processo) e não nos factores que julgo primordiais - o conteúdo.

Preocupa-me que tu declares uma intenção de voto por estares contra, mesmo reconhecendo que não existe alternativa válida.

Espero que a maioria dos sócios do Sporting não tenha a mesma visão do que tu. Não por pensar que não existem alternativas (mesmo que eu não as conheça), mas sim por o teu voto ser um voto sem esperança...

quinta-feira, março 16, 2006 1:58:00 da manhã  
Blogger El Ranys said...

Não, caro Rantas, quem não tem esperança é o Soares Franco: ou vendemos ou morremos. Eu, como acho que o Sporting é maior do que essas pequenas chantagens, acho que não é preciso decidir vender já. Marquem-se eleições para o final de Maio. Até lá, faça-se (dadas as contradições suscitadas por Dias da Cunha) a auditoria. Apresentem-se os candidatos. Discutam-se os programas. Analisem-se as alternativas. E, então, eleita uma nova direcção, cumpra-se o programa vencedor que, se passar por alienação do património, deve ser executado.
Assim, tal como nos é apresentado o problema, com esta urgência, é que não. Afinal, qual é a pressa?

(até apresento uma solução para cobrir, de imediato, o défice de tesouraria: a alienação de parte da participação do Sporting na SAD).

É só isso que digo no meu post. Não perecebo o que vês aqui de acessório. Eu vejo o fundamental.

Já agora: tanta conversa e não és sócio? É preciso ter topete! ;-)
Esta é a hora, pá. Até podes tratar disso pela internet. Precisas de ajuda para preencher o formulário?

quinta-feira, março 16, 2006 3:07:00 da manhã  
Blogger Dever Devamos said...

A questão também tem a ver com alternativas. Soares Franco apresenta a única via. Há alternativas credíveis?

quinta-feira, março 16, 2006 9:13:00 da manhã  
Blogger Dever Devamos said...

E digo mais El, tenciono votar a favor de Soares Franco porque foi o único que apresentou uma solução.

Os manos Dias (Cunha e Ferreira) limitam-se a mandar bitaites para o ar.

quinta-feira, março 16, 2006 9:19:00 da manhã  
Blogger El Ranys said...

Mas, caro Dever, repara:
Em lado nenhum eu escrevi, até hoje, que me oponho à venda de património. Claro que não me agrada que tal aconteça, como decerto não agrada a nenhum sportinguista.
O que entendo é que deve haver mais e melhor informação e discussão. Abrantes Mendes, por exemplo, diz que tem alternativas.
Porque não esperamos um pouco e discutimos tudo isto na campanha eleitoral, que deve decorrer daqui a dois meses? Porque tem que ser agora, à pressão? Já reparaste que podemos cair no paradoxo de estarmos agora a discutir isto tudo e, daqui a dois ou três meses, termos uma direcção eleita que não queria alienar o património? Nã teria sido uma precipitação?

Há coisas que, para mim, são neste momento muito claras:
1 - O Sporting foi mal gerido nos últimos dez anos.O "porjecto Roquette", no papel inatacável, foi uma aventura.
2 - O património do Sporting foi delapidado, quer em termos imobiliários, quer em termos desportivos.
3 - O Sporting não tem vocação para a gestão imobiliária. O 'negócio' do Sporting é o desporto e, em especial, o futebol.
4 - Quando se fala em vender património, estamos a falar de vender activos, que geram receitas importantes através das rendas recebidas. Foi, aliás, com o argumento de que essas receitas seriam importantes para o futuro do Sporting, que o projecto avançou.
5 - Alienar património também vai implicar despesas acrescidas. Passa o Sporting a pagar uma renda pelo espaço que ocupa no edifício-sede e pela fan-lab.
6 - Sendo a situação tão grave, como se explica que Soares Franco tenha investido 5,2 milhões de euros em jogadores em Janeiro. Irresponsabilidade?

No fundo, a minha posição não é de dizer "Não se vende património", é mais "vamos para eleições e deixem todos os candidatos dizer de sua justiça". Muito simples. Para isso, a única maneira de tornar possível esta hipótese é votar, nesta assembleia, Não!

No fundo, tudo se resume a isto: qual é a pressa? Não se pode esperar 2 ou 3 meses para que todas as soluções, propostas e alternativas sejam postas em cima da mesa? Eu acho que se pode e que se deve.

quinta-feira, março 16, 2006 10:43:00 da manhã  
Blogger Dever Devamos said...

Mas que sentido faz Soares Franco ganhar eleições (se fosse o caso) e depois não poder por em prática o seu plano, que é vender o imobiliário.

Explica-me como é que gastámos 5.2 m.e. em janeiro?
Envio excerto de entrevista de Soares franco dada ao Público
"FILIPE SOARES FRANCO – ...Depois da sua saída registaram-se imensas transacções que ele não pode estar agora a contabilizar. O Beto, o Fábio Ferreira e o Ricardo Cordeiro – juniores contratados pelo Chelsea – e o Rogério saíram todos do Sporting após a sua demissão e permitiram um encaixe líquido de 1,204 milhões de euros. Por outro lado, o Sporting pagou pelos empréstimos do Koke, do Romagnoli e do Caneira 460 mil euros. Portanto, isto resulta num saldo positivo de cerca de 750 mil euros. Em termos salariais, com as saídas do Beto, do Pinilla, do Semedo, do Silva poupámos qualquer coisa como 450 mil euros"

quinta-feira, março 16, 2006 12:18:00 da tarde  
Blogger El Ranys said...

Mas, se Soares Franco ganhar as eleições, será sempre com o pressuposto de que irá vender património. Ou os sportinguistas são todos estúpidos e votam no homem sem perceber isso?

Como te disse, há pouca clareza. Este número, de 5,2 milhões de euros (atenção à questão do Abel e às renovações do Liedson e do Fábio Paim, que não são referidos por FSF) foi avançado por Dias da Cunha. Estará a mentir ou está só louco? Seja como for, isto demonstra que há muita confusão no ar.

quinta-feira, março 16, 2006 12:54:00 da tarde  
Blogger Dever Devamos said...

Que há confusão, concordo. Dias da Cunha não me merece muita consideração, pois ele comporta-se como se nunca tivesse sido dirigente do Sporting.

Quanto às renovações que referes, devem ser ajustadas relativamente aos anos em que vão estar em vigor. Não houve custos de aquisição de Liedson (luvas?) e Paim, pelo que o investimento na renovação deve reflectir-se, de acordo com os principios contabilisticos existentes.

quinta-feira, março 16, 2006 2:18:00 da tarde  
Blogger El Ranys said...

Já agora, também para o Rantas: o Sporting tem tido boas equipas de futebol. Foi duas vezes campeão nacional. O ano passado, discutiu o título até ao fim e esteve presente numa final europeia. Isto só pode ser considerado sucesso desportivo (pelo menos um 'quase' sucesso desportivo). Se, mesmo assim, não aumentou o número de sócios, pelo contrário, como vens tu agora dizer que o sucesso financeiro do Sporting só se assegura com... sucesso desportivo????
Vender o património, meu caro, é a solução fácil. Qualquer um a encontraria. Não vejo nenhum mérito especial nisso. O problema, depois, é que ficamos sem nada. Nada. Esta troupe toda que tem mandado no SCP, da qual Soares Franco faz parte, fodeu o clube. Mesmo com fantásticas receitas extraordinárias, conseguiu foder o clube.
E tu, vocês, ainda vão na cantiga. Soares Franco fez um brilhante serviço no Estoril. Prepara-se, agora, para fazer o mesmo no Sporting. Eu, que enterro todos os anos centenas de contos no Sporting, exijo agora que se pare para pensar. Estamos à beira do precipício. Devemos ar um passo em frente?

quinta-feira, março 16, 2006 2:42:00 da tarde  
Blogger manolo said...

El Ranys, esse azedume em relação à "elite" de gestores é talvez uma reacção a este Projecto, pois nunca vi criticar a construção do Estádio e Academia (os grandes factores de endividamento) numa altura em que, por falta de recursos financeiros, já tínhamos acabado com o basquetebol (antes de Roquette). A criação da SAD também é um mal? Ou não será a forma de estar nesta indústria que gera e consome milhões? Está cotada na Bolsa, ou será esse facto despiciendo? A venda de jogadores é precisamente o que se pretende evitar. E este é precisamente o motivo da discórdia. Soares Franco já tinha manifestado esta ideia no Conselho Leonino, mas sabia que estava em minoria. Assim numa atitude pouco vulgar (o normal é ganhar eleições e depois, aplicar) e de alguma coragem apresentou este projecto aos sócios; se não fôr aceite, não será presidente. Nenhum problema. Mas não está agarrado ao poder, e acredita no seu projecto, afirmando que não há alternativa. Pode ser posto em causa, mas claramente, já com os custos reduzidos (e bem) as receitas a evoluirem pouco (a Champions é essencial) temos um serviço de dívida que nos condena a vender ano após ano os nossos melhores valores. E isto é um círculo vicioso. Relativamente às modalidades, Soares Franco não quer acabar: Atletismo (caso à parte), futsal e andebol têm que se auto-financiar. Ou não? Mandar bardamerda esta troupe, não é, a meu ver, a forma de sportinguistas falarem do clube, mas reconheço que é bastante popular. O valor do clube está no Estádio, na Academia na equipa e nos sócios. "Podíamos esperar mais uns anos, se a alternativa era esta"; aqui não entendi: esperar o quê? Não construir o Estádio ou a Academia? Seria bom que a discussão não passasse pelo insulto aos dirigentes que deram o seu melhor pelo nosso clube. Falo de Galvão Teles, José Eduardo Bettencourt, Ribeiro Teles, etc. Escrevi também um post sobre o tema. Aliás, o votar não e esperar pelas eleições foi também a minha primeira inclinação. Mas isso também seria cortar essa possibilidade. Desta forma, votando sim, estarei também aberto a outras alternativas que, de momento não apareceram.

quinta-feira, março 16, 2006 9:06:00 da tarde  
Blogger El Ranys said...

Manolo,
Quando mando bardamerda esta troupe, não estou a falar do clube. O clube não se confunde com os seus dirigentes. Estes passam. O clube, o Sporting Clube de Portugal, fica. Espero.
Existe algum sportinguista que, hoje, não se sinta defraudado com o "projecto Roquette"? Não creio.

Umas notas adicionais: só agora, à noite, tive oportunidade de ler a entrevista de Soares Franco ao Público. O que nos diz ele? Que o Sporting ainda tem a receber 35 milhões de euros da venda dos terrenos do antigo estádio, o que vai acontecer logo que o projecto de urbanização seja aprovado pela câmara. Que tem ainda a receber 65 milhões de euros (leram bem, 65) da venda dos direitos televisivos até 2018. Já vamos em 100 milhões.
Afinal, isto é bem mais do que os 60 milhões que Soares Franco pretende arrecadar com a venda do património. Não te começa a parecer dinheiro a mais nas mãos do homem?

Mais coisas: entrou no Sporting muito dinheiro nos últimos anos. Mas para onde está a ir este dinheiro todo?
1999 - Simão Sabrosa - 15 milhões de euros
2002 - Hugo Viana - 12 milhões de euros
2003 - Cristiano Ronaldo - 17,5 milhões de euros
2003 - Ricardo Quaresma - 6 milhões de euros
2004 - Joseph Enakharire - 6 milhões de euros

Estes são só os jogadores que foram vendidos por valores mais elevados.
A soma dá 56,5 milhões de euros. Nos últimos 6 anos. Claro que o valor relativo a transferências aumentará, e muito, se somarmos todas as restantes, como as de Rochemback, Boa Morte, Danny e tantos outros.
Junta-lhe ainda o dinheiro do naming das portas do estádio e da venda, por 20 anos, dos lugares cativos.

O ano passado, fomos à final da taça UEFA e recebemos boas massas por esse feito e também pelas receitas de bilheteira e direitos televisivos ao longo da caminhada. Além disso, ainda alugámos o estádio à UEFA, para a final.

Mas para onde é que foi este dinheiro todo. Onde é que foi gasto? Que gestão foi esta, que acumulou, nestes anos, um passivo de 100 milhões de euros (a que se somam os 160 e tal de construção do património)?

Queres o quê? que diga que os gestores do Sporting (e atenção, aponto o dedo, com mais vigor, a Dias da Cunha) foram muito bons?

Ora, perdi a paciência. E não vejo que Soares Franco seja muito diferente. Muito sinceramente, acho tudo isto muito estranho. Auditoria, já. Sem ela, não dou carta branca a ninguém para negócios que não posso deixar de considerar mal explicados.

sexta-feira, março 17, 2006 2:47:00 da manhã  

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