O azar de Peseiro

Em 18 Maio 2005, estava no estádio de Alvalade. Final da Taça UEFA. Ao intervalo ganhávamos por 1-0, e com um desempenho que merecia mais. Após o intervalo, o pesadelo. Já havia 1-2 quando Tello, dentro da área pela direita, com 3 colegas bem colocados tenta o remate. A bola ainda bate em alguém mas não entra. Ainda desesperado pelo falhanço, não acredito no que acaba de acontecer: num ataque rápido, praticamente sem oposição os russos ditam o vencedor. No mesmo instante duas emoções de sentidos opostos.
A carreira europeia do Sporting na época passada foi linda. O perfume do bom futebol encantou esses relvados da Europa. Quem não se lembra das vitórias com o Feyanoord e quando chegámos a 3-0 em Middlesbrough? E a epopeia da eliminatória com o Newcastle, quando após perder fora 1-0, começámos também por sofrer um golo. Recuperação fantástica e chapa 4 no final. Último minuto do prolongamento da 2ª mão da meia-final: canto a favor do Sporting, explosão na cabeçada de Miguel Garcia e toda a sorte para Peseiro. Mas a que preço?
Após um mau início de Campeonato a filosofia de Peseiro impôs-se: futebol de bola no pé, de ataque, de remates e de golos. Para a Taça no Estádio da Luz os nossos rivais ficaram convencidos da nossa superioridade, tal foi o "banho de bola". Aqui M. Garcia foi o vilão. Lutámos pelo título, chegando à penúltima jornada, aos 85min na Luz com o Campeonato na mão.

E esse instante, cruel, resultante de um livre mal marcado, uma saída do Ricardo trágica, uma decisão do árbitro que podia (devia?) ser a de anular o golo, aliás como todos (inclusive jogadores do Benfica) esperavam. Este momento definiu o azar de Peseiro. Tínhamos jogado para empatar, sem Liedson (culpa própria) e ficámos a 5min do objectivo. Depois a derrota na UEFA. Peseiro votado o melhor treinador do ano (na semana anterior) e fecho da época.
Calendário díficil mas 3 vitórias conseguidas a abrir. Após eliminatória com a Udinese (Liga dos Campeões) com aplausos na derrota em casa, a eliminatória contra o Halmstads. Aqui outro instante de má fortuna. Depois de um mau jogo, empatado aos 90min que nos garantia a passagem à fase de grupos, há um livre com uma saída fora do tempo e espaço do Nelson e prolongamento que deitaria tudo a perder. Foi duro. E o público de Alvalade não perdoou. Já antes na vitória ao Setúbal por escasso 1-0, lenços brancos, toda a animosidade contra Peseiro a intraquilizar a equipa.
Com a equipa sem a confiança, o treinador a ser contestado, a situação tornou-se insustentável. Mas o tempo fará alguma justiça a um bom treinador, competente, trabalhador e com conhecimentos. Mas também com azar. Sobretudo com azar com o público leonino que nunca o considerou um dos nossos. Espero contribuir para a memória dos sportinguistas para que na história do clube haja um espaço digno para Peseiro, o treinador que quase... nos levou a fazer a melhor temporada de todos os tempos.
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